terça-feira, 6 de abril de 2010
da Folha Online
A classe C ampliou sua participação para 49% da população brasileira em 2009, ano marcado pela crise financeira global, ante 45% no ano anterior. Já as classes A/B subiram de 15% para 16%, enquanto as D/E caíram de 40% para 35% do total, de acordo com pesquisa divulgada nesta terça-feira pela Cetelem, financeira do grupo francês BNP Paribas, em conjunto com a Ipsos.
Segundo o "Observador Brasil 2010", a expansão da classe C chegou a 15 pontos percentuais, considerando os dados desde 2005, quando essa fatia da população representava 34% do total. Naquele ano, as classes A/B respondiam por 15% e as D/E por 51%.
Nos últimos cinco anos, a classe C ganhou 30,2 milhões de consumidores. Já os segmentos D/E perderam 26,1 milhões.
Entre 2008 e 2009, a renda familiar média mensal caiu nas classes A e B de R$ 2.586 para R$ 2.533, mas subiu na C (de R$ 1.201 para R$ 1.276) e nas D/E (de R$ 650 para R$ 733).
Já a renda disponível, calculada subtraindo do rendimento total todos os gastos e investimentos, caiu em todos os estratos. Nas classes A/B, o número em 2009 foi de R$ 690, ante R$ 834 no ano anterior. Na C, caiu de R$ 212 para R$ 204 e nas D/E de R$ 69 para R$ 61.
Na análise por regiões, o Nordeste e o Sudeste tiveram um aumento da renda familiar mensal semelhante entre 2008 e 2009, de R$ 178 e R$ 179, respectivamente. No entanto, a renda disponível foi R$ 65 maior no Nordeste, e R$ 14 inferior no Sudeste.
As classes sociais utilizadas no estudo são as definidas pelo CCEB (Critério de Classificação Econômica Brasil), fornecido pela Abec (Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa). A pesquisa se baseia em uma amostra de 1.500 entrevistas, realizadas entre os dias 18 e 29 de dezembro de 2009 em 70 cidades, abrangendo nove regiões metropolitanas do país.
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terça-feira, 6 de abril de 2010
Um retrato dos EUA
Paul Craig Roberts
Houve um tempo em que a caneta era mais poderosa do que a espada. Houve um tempo em que as pessoas acreditavam na verdade e encaravam-na como uma força independente e não como um auxiliar de governo, classe, raça, ideologia, interesse pessoal ou financeiro.
Hoje os americanos são dominados pela propaganda. Os americanos têm pouco respeito pela verdade, pouco acesso a ela e pouca capacidade para reconhecê-la.
A verdade é uma entidade importuna. É perturbadora. Está fora dos limites. Aqueles que a exprimem correm o risco de serem marcados como "anti-americano", "anti-semita" ou "teórico da conspiração".
A verdade é uma inconveniência para o governo e para os grupos de interesse cujas contribuições de campanha controlam o governo.
A verdade é uma inconveniência para promotores públicos que querem condenações, não a descoberta da inocência ou da culpa.
A verdade é inconveniente para ideólogos.
Hoje muitos daqueles cujo objectivo outrora era a descoberta da verdade são agora generosamente pagos para escondê-la. "Economistas do mercado livre" são pagos para vender a deslocalização ao povo americano. Empregos americanos de alta produtividade e alto valor acrescentado são denegridos como sujos, empregos industriais velhos. Restos de uma era ultrapassada, ficamos melhor livrando-nos deles. O seu lugar foi tomado pela "Nova Economia", uma economia mítica que alegadamente consiste de empregos de alta tecnologia com colarinho branco nos quais os americanos inovam e financiam actividades que ocorrem lá fora. Tudo o que os americanos precisam a fim de participar nesta "nova economia" são licenciaturas em finanças das universidades da Ivy League – e então trabalharão na Wall Street em empregos de milhões de dólares.
Economistas que outrora foram respeitáveis ganharam dinheiro a fim de contribuir para este mito da "Nova Economia".
E não só economistas vendem as suas mãos pelo lucro sujo. Recentemente tivemos relatórios de médicos que, por dinheiro, publicaram em órgãos revistos por pares (peer-reviewed) "estudos" cozinhados que alardeiam este ou aquele novo remédio produzido pelas companhias farmacêuticas que pagam pelos "estudos".
O Conselho da Europa está a investigar o papel de companhias de drogas em alardear uma falsa pandemia de peste suína a fim de ganhar milhares de milhões de dólares nas vendas da vacina.
Os media ajudaram os militares estado-unidenses a alardear a sua recente ofensiva em Marja, no Afeganistão, descrevendo-a como uma cidade de 80 mil habitantes sob controle Taliban. Verificou-se que Marja não é uma zona urbana e sim um conjunto de aldeias agrícolas.
E há o escândalo do aquecimento global, no qual ONGs, a ONU e a indústria nuclear conluiaram-se para cozinhar um cenário do juízo final a fim de criar lucro com a poluição.
Por toda a parte para onde se olhe, a verdade sucumbiu ao dinheiro.
Todas as vezes em que o dinheiro é insuficiente para enterrar a verdade, a ignorância, a propaganda e a memória curta acabam o trabalho.
Lembro quando, após o testemunho do director da CIA William Colby perante o Comité Church em meados da década de 1970, os presidentes Gerald Ford e Ronald Reagan emitiram ordens executivas impediram a CIA e grupos estado-unidenses de operações negras de assassinarem líderes estrangeiros. Em 2010 o Congresso dos EUA foi informado por Dennis Blair, responsável da inteligência nacional, que os EUA agora assassinam os seus próprios cidadãos além de líderes estrangeiros.
Quando Blair disse ao Comité de Inteligência da Câmara que cidadãos dos EUA não precisam mais ser presos, acusados, processados e condenados por um crime capital, apenas assassinados só pela suspeita de serem uma "ameaça", ele não foi removido (impeached). Nenhuma investigação se seguiu. Nada aconteceu. Não houve Comité Church. Nos meados dos anos 70 a CIA complicou-se com problemas por tramas para matar Castro. Hoje são os cidadãos americanos que estão na lista a abater. Sejam quais forem as objecções elas não terão qualquer peso. Ninguém no governo está minimamente perturbado quanto ao assassínio de cidadãos dos EUA pelo governo dos EUA.
Como economista, fico estupefacto pelo facto de os profissionais da Ciência Económica americanos não terem consciência de que a economia dos Estados Unidos foi destruída pela deslocalização do PIB dos EUA para países além-mar. As corporações dos EUA, na busca da vantagem absoluta ou dos mais baixos custos do trabalho e dos máximos "bónus de desempenho" dos seus presidentes, transferiram a produção de bens e serviços vendidos a americanos para a China, Índia e outros lugares no exterior. Quando leio economistas a descreverem a deslocalização como comércio livre baseado em vantagens comparativas, percebo que não há inteligência ou integridade na profissão americana da Ciência Económica.
A inteligência e a integridade foram compradas pelo dinheiro. As corporações transnacionais ou globais dos EUA pagam pacotes de compensação de muitos milhões de dólares a administradores de topo, os quais alcançam estes "prémios de desempenho" através da substituição do trabalho americano pelo trabalho estrangeiro. Enquanto Washington está a preocupar-se acerca da "ameaça muçulmana", os engodos da Wall Street, das corporações dos EUA e do "mercado livre" destroem a economia estado-unidense e as perspectivas de dezenas de milhões de americanos.
Os americanos, ou a maior parte deles, demonstraram ser maleáveis nas mãos da polícia do estado.
Os americanos aceitaram a afirmação do governo de que a segurança exige a suspensão de liberdades civis e de governo responsável. Espantosamente, os americanos, ou a maior parte deles, acredita que liberdades civis, tais como habeas corpus e o devido processo, protegem "terroristas" e não a eles próprios. Muitos acreditam também que a Constituição é um antigo documento desgastado que impede o governo de exercer a espécie de poderes de polícia de estado necessários para manter os americanos seguros e livres.
A maior parte dos americanos pouco provavelmente ouvirá de alguém que lhes conte algo diferente.
Fui editor associado e colunista do Wall Street Journal. Fui o primeiro colunista externo da Business Week, um cargo que mantive durante 15 anos. Fui colunista durante uma década do Scripps Howard News Service, publicado em 300 jornais. Fui colunista do Washington Times e de jornais em França e Itália e de uma revista na Alemanha. Fui colaborador do New York Times e colunista regular no Los Angeles Times. Hoje não posso publicar, ou aparecer, nos media americanos "de referência".
Nos últimos seis anos fui banido dos media "de referência". A minha última coluna no New York Times apareceu em Janeiro de 2004, em co-autoria com o senador democrata Charles Schumer, representante de Nova York. Tratámos da deslocalização dos empregos estado-unidenses. O nosso artigo na página editorial provocou uma conferência na Brookings Institution, em Washington D.C. e uma cobertura viva do C-Span. Foi lançado um debate. Nada disso poderia acontecer hoje.
Durante anos fui um esteio no Washington Times, produzindo credibilidade para o jornal de Moony como colunista da Business Week, ex-editor do Wall Street Journal e ex-secretário assistente do Tesouro dos EUA. Mas quando comecei a criticar guerras de agressão de Bush, desceu para Mary Lou Forbes a ordem de cancelar a minha coluna.
Os media corporativos americanos não servem a verdade. Eles servem o governo e os grupos de interesses que se apoderaram do governo.
O destino da América foi selado quando o público e o movimento anti-guerra compraram ao governo a teoria conspirativa do 11/Set. A explicação do governo quanto ao 11/Set é contraditada por muita evidência. No entanto, este evento definidor do nosso tempo, o qual lançou os EUA em intermináveis guerras de agressão e num estado policial interno, é um tópico tabu de investigação nos media. É inútil queixar-se de guerra e estado policial quando se aceita a premissa sobre a qual eles se baseiam.
Estas guerras de milhões de milhões (trillion) de dólares criaram problemas de financiamento para os défices de Washington e ameaçam o papel do dólar americano como divisa de reserva mundial. As guerras e a pressão que os défices orçamentais impõem sobre o valor do dólar colocaram a Segurança Social e o Medicare na linha de corte. O antigo presidente da Goldman Sachs e secretário do Tesouro dos EUA, Hank Paulson, pretende estas protecções para os idosos. O presidente do Fed, Bernanke, também as pretende. Os republicanos pretendem-nas igualmente. Estas protecções são chamadas "direitos garantidos" ("entitlements") como se fossem alguma espécie de previdência que as pessoas houvessem pago através de descontos na folha de pagamento durante todas as suas vidas de trabalho.
Com mais de 21 por cento de desemprego quando medido pela metodologia de 1980, com empregos, PIB e tecnologia americanos tendo sido dados à China e à Índia, com a guerra sendo o maior compromisso de Washington, com o dólar sobrecarregado com a dívida, com a liberdade civil sacrificada à "guerra ao terror", a liberdade e a prosperidade do povo americano foi atirada no caixote de lixo da história.
O militarismo dos estados estado-unidense e israelense, e a cobiça da Wall Street e das corporações, agora seguirão o seu curso. Quando a caneta é censurada e o seu poder extinto, calo-me.
Paul Craig Roberts was editor of the Wall Street Journal and an Assistant Secretary of the U.S. Treasury.
Este artigo encontra-se em http://www.counterpunch.org/roberts03242010.html
Houve um tempo em que a caneta era mais poderosa do que a espada. Houve um tempo em que as pessoas acreditavam na verdade e encaravam-na como uma força independente e não como um auxiliar de governo, classe, raça, ideologia, interesse pessoal ou financeiro.
Hoje os americanos são dominados pela propaganda. Os americanos têm pouco respeito pela verdade, pouco acesso a ela e pouca capacidade para reconhecê-la.
A verdade é uma entidade importuna. É perturbadora. Está fora dos limites. Aqueles que a exprimem correm o risco de serem marcados como "anti-americano", "anti-semita" ou "teórico da conspiração".
A verdade é uma inconveniência para o governo e para os grupos de interesse cujas contribuições de campanha controlam o governo.
A verdade é uma inconveniência para promotores públicos que querem condenações, não a descoberta da inocência ou da culpa.
A verdade é inconveniente para ideólogos.
Hoje muitos daqueles cujo objectivo outrora era a descoberta da verdade são agora generosamente pagos para escondê-la. "Economistas do mercado livre" são pagos para vender a deslocalização ao povo americano. Empregos americanos de alta produtividade e alto valor acrescentado são denegridos como sujos, empregos industriais velhos. Restos de uma era ultrapassada, ficamos melhor livrando-nos deles. O seu lugar foi tomado pela "Nova Economia", uma economia mítica que alegadamente consiste de empregos de alta tecnologia com colarinho branco nos quais os americanos inovam e financiam actividades que ocorrem lá fora. Tudo o que os americanos precisam a fim de participar nesta "nova economia" são licenciaturas em finanças das universidades da Ivy League – e então trabalharão na Wall Street em empregos de milhões de dólares.
Economistas que outrora foram respeitáveis ganharam dinheiro a fim de contribuir para este mito da "Nova Economia".
E não só economistas vendem as suas mãos pelo lucro sujo. Recentemente tivemos relatórios de médicos que, por dinheiro, publicaram em órgãos revistos por pares (peer-reviewed) "estudos" cozinhados que alardeiam este ou aquele novo remédio produzido pelas companhias farmacêuticas que pagam pelos "estudos".
O Conselho da Europa está a investigar o papel de companhias de drogas em alardear uma falsa pandemia de peste suína a fim de ganhar milhares de milhões de dólares nas vendas da vacina.
Os media ajudaram os militares estado-unidenses a alardear a sua recente ofensiva em Marja, no Afeganistão, descrevendo-a como uma cidade de 80 mil habitantes sob controle Taliban. Verificou-se que Marja não é uma zona urbana e sim um conjunto de aldeias agrícolas.
E há o escândalo do aquecimento global, no qual ONGs, a ONU e a indústria nuclear conluiaram-se para cozinhar um cenário do juízo final a fim de criar lucro com a poluição.
Por toda a parte para onde se olhe, a verdade sucumbiu ao dinheiro.
Todas as vezes em que o dinheiro é insuficiente para enterrar a verdade, a ignorância, a propaganda e a memória curta acabam o trabalho.
Lembro quando, após o testemunho do director da CIA William Colby perante o Comité Church em meados da década de 1970, os presidentes Gerald Ford e Ronald Reagan emitiram ordens executivas impediram a CIA e grupos estado-unidenses de operações negras de assassinarem líderes estrangeiros. Em 2010 o Congresso dos EUA foi informado por Dennis Blair, responsável da inteligência nacional, que os EUA agora assassinam os seus próprios cidadãos além de líderes estrangeiros.
Quando Blair disse ao Comité de Inteligência da Câmara que cidadãos dos EUA não precisam mais ser presos, acusados, processados e condenados por um crime capital, apenas assassinados só pela suspeita de serem uma "ameaça", ele não foi removido (impeached). Nenhuma investigação se seguiu. Nada aconteceu. Não houve Comité Church. Nos meados dos anos 70 a CIA complicou-se com problemas por tramas para matar Castro. Hoje são os cidadãos americanos que estão na lista a abater. Sejam quais forem as objecções elas não terão qualquer peso. Ninguém no governo está minimamente perturbado quanto ao assassínio de cidadãos dos EUA pelo governo dos EUA.
Como economista, fico estupefacto pelo facto de os profissionais da Ciência Económica americanos não terem consciência de que a economia dos Estados Unidos foi destruída pela deslocalização do PIB dos EUA para países além-mar. As corporações dos EUA, na busca da vantagem absoluta ou dos mais baixos custos do trabalho e dos máximos "bónus de desempenho" dos seus presidentes, transferiram a produção de bens e serviços vendidos a americanos para a China, Índia e outros lugares no exterior. Quando leio economistas a descreverem a deslocalização como comércio livre baseado em vantagens comparativas, percebo que não há inteligência ou integridade na profissão americana da Ciência Económica.
A inteligência e a integridade foram compradas pelo dinheiro. As corporações transnacionais ou globais dos EUA pagam pacotes de compensação de muitos milhões de dólares a administradores de topo, os quais alcançam estes "prémios de desempenho" através da substituição do trabalho americano pelo trabalho estrangeiro. Enquanto Washington está a preocupar-se acerca da "ameaça muçulmana", os engodos da Wall Street, das corporações dos EUA e do "mercado livre" destroem a economia estado-unidense e as perspectivas de dezenas de milhões de americanos.
Os americanos, ou a maior parte deles, demonstraram ser maleáveis nas mãos da polícia do estado.
Os americanos aceitaram a afirmação do governo de que a segurança exige a suspensão de liberdades civis e de governo responsável. Espantosamente, os americanos, ou a maior parte deles, acredita que liberdades civis, tais como habeas corpus e o devido processo, protegem "terroristas" e não a eles próprios. Muitos acreditam também que a Constituição é um antigo documento desgastado que impede o governo de exercer a espécie de poderes de polícia de estado necessários para manter os americanos seguros e livres.
A maior parte dos americanos pouco provavelmente ouvirá de alguém que lhes conte algo diferente.
Fui editor associado e colunista do Wall Street Journal. Fui o primeiro colunista externo da Business Week, um cargo que mantive durante 15 anos. Fui colunista durante uma década do Scripps Howard News Service, publicado em 300 jornais. Fui colunista do Washington Times e de jornais em França e Itália e de uma revista na Alemanha. Fui colaborador do New York Times e colunista regular no Los Angeles Times. Hoje não posso publicar, ou aparecer, nos media americanos "de referência".
Nos últimos seis anos fui banido dos media "de referência". A minha última coluna no New York Times apareceu em Janeiro de 2004, em co-autoria com o senador democrata Charles Schumer, representante de Nova York. Tratámos da deslocalização dos empregos estado-unidenses. O nosso artigo na página editorial provocou uma conferência na Brookings Institution, em Washington D.C. e uma cobertura viva do C-Span. Foi lançado um debate. Nada disso poderia acontecer hoje.
Durante anos fui um esteio no Washington Times, produzindo credibilidade para o jornal de Moony como colunista da Business Week, ex-editor do Wall Street Journal e ex-secretário assistente do Tesouro dos EUA. Mas quando comecei a criticar guerras de agressão de Bush, desceu para Mary Lou Forbes a ordem de cancelar a minha coluna.
Os media corporativos americanos não servem a verdade. Eles servem o governo e os grupos de interesses que se apoderaram do governo.
O destino da América foi selado quando o público e o movimento anti-guerra compraram ao governo a teoria conspirativa do 11/Set. A explicação do governo quanto ao 11/Set é contraditada por muita evidência. No entanto, este evento definidor do nosso tempo, o qual lançou os EUA em intermináveis guerras de agressão e num estado policial interno, é um tópico tabu de investigação nos media. É inútil queixar-se de guerra e estado policial quando se aceita a premissa sobre a qual eles se baseiam.
Estas guerras de milhões de milhões (trillion) de dólares criaram problemas de financiamento para os défices de Washington e ameaçam o papel do dólar americano como divisa de reserva mundial. As guerras e a pressão que os défices orçamentais impõem sobre o valor do dólar colocaram a Segurança Social e o Medicare na linha de corte. O antigo presidente da Goldman Sachs e secretário do Tesouro dos EUA, Hank Paulson, pretende estas protecções para os idosos. O presidente do Fed, Bernanke, também as pretende. Os republicanos pretendem-nas igualmente. Estas protecções são chamadas "direitos garantidos" ("entitlements") como se fossem alguma espécie de previdência que as pessoas houvessem pago através de descontos na folha de pagamento durante todas as suas vidas de trabalho.
Com mais de 21 por cento de desemprego quando medido pela metodologia de 1980, com empregos, PIB e tecnologia americanos tendo sido dados à China e à Índia, com a guerra sendo o maior compromisso de Washington, com o dólar sobrecarregado com a dívida, com a liberdade civil sacrificada à "guerra ao terror", a liberdade e a prosperidade do povo americano foi atirada no caixote de lixo da história.
O militarismo dos estados estado-unidense e israelense, e a cobiça da Wall Street e das corporações, agora seguirão o seu curso. Quando a caneta é censurada e o seu poder extinto, calo-me.
Paul Craig Roberts was editor of the Wall Street Journal and an Assistant Secretary of the U.S. Treasury.
Este artigo encontra-se em http://www.counterpunch.org/roberts03242010.html
O mais do mesmo
6 de abril de 2010 às 8:05
A reprise de 2006. Agora, como farsa
por Luiz Carlos Azenha
Em 2005 e 2006 eu era repórter especial da TV Globo. Tinha salário de executivo de multinacional. Trabalhei na cobertura da crise política envolvendo o governo Lula.
Fui a Goiânia, onde investiguei com uma equipe da emissora o caixa dois do PT no pleito local. Obtivemos as provas necessárias e as reportagens foram ao ar no Jornal Nacional. O assunto morreu mais tarde, quando atingiu o Congresso e descobriu-se que as mesmas fontes financiadoras do PT goiano também tinham irrigado os cofres de outros partidos. Ou seja, a “crise” tornou-se inconveniente.
Mais tarde, já em 2006, houve um pequena revolta de profissionais da Globo paulista contra a cobertura política que atacava o PT mas poupava o PSDB. Alguns dos colegas sairam da emissora, outros ficaram. Como resultado de um encontro interno ficou decidido que deixaríamos de fazer uma cobertura seletiva das capas das revistas semanais.
Funciona assim: a Globo escolhe algumas capas para repercutir, mas esconde outras. Curiosamente e coincidentemente, as capas repercutidas trazem ataques ao governo e ao PT. As capas “esquecidas” podem causar embaraço ao PSDB ou ao DEM. Aquela capa da Caros Amigos sobre o filho que Fernando Henrique Cardoso exilou na Europa, por exemplo, jamais atenderia aos critérios de Ali Kamel, que exerce sobre os profissionais da emissora a mesma vigilância que o cardeal Ratzinger dedicava aos “insubordinados”.
Aquela capa da Caros Amigos, como vimos estava factualmente correta. O filho de FHC só foi “assumido” quando ele estava longe do poder. Já a capa da Veja sobre os dólares de Fidel Castro para a campanha de Lula mereceu cobertura no Jornal Nacional de sábado, ainda que a denúncia nunca tenha sido comprovada.
Funciona assim: aos sábados, o Jornal Nacional repercute acriticamente as capas da Veja que trazem denúncias contra o governo Lula e aliados. É o que se chama no meio de “dar pernas” a um assunto, garantir que ele continue repercutindo nos dias seguintes.
Pois bem, no episódio que já narrei aqui no blog eu fui encarregado de fazer uma reportagem sobre as ambulâncias superfaturadas compradas pelo governo quando José Serra era ministro da Saúde no governo FHC. Havia, em todo o texto, um número embaraçoso para Serra, que concorria ao governo paulista: a maioria das ambulâncias superfaturadas foi comprada quando ele era ministro.
Ainda assim, os chefes da Globo paulista garantiram que a reportagem iria ao ar. Sábado, nada. Segunda, nada. Aparentemente, alguém no Rio decidiu engavetar o assunto. E é essa a base do que tenho denunciado continuamente neste blog: alguns escândalos valem mais que outros, algumas denúncias valem mais que outras, os recursos humanos e técnicos da emissora — vastos, aliás — acabam mobilizados em defesa de certos interesses e para atacar outros.
Nesta campanha eleitoral já tem sido assim: a seletividade nas capas repercutidas foi retomada recentemente, quando a revista Veja fez denúncias contra o tesoureiro do PT. Um colega, ex-Globo, me encontrou e disse: “A fórmula é a mesma. Parece reprise”.
Ou seja, podemos esperar mais do mesmo:
– Sob o argumento de que a emissora está concedendo “tempo igual aos candidatos”, se esconde uma armadilha, no conteúdo do que é dito ou no assunto que é escolhido. Frequentemente, em 2006, era assim: repercutindo um assunto determinado pela chefia, a Globo ouvia três candidatos atacando o governo (Geraldo Alckmin, Heloisa Helena e Cristovam Buarque) e Lula ou um assessor defendendo. Ou seja, era um minuto e meio de ataques e 50 segundos de contraditório.
– O Bom Dia Brasil é reservado a tentar definir a agenda do dia, com ampla liberdade aos comentaristas para trazer à tona assuntos que em tese favoreçam um candidato em detrimento de outro.
– O Jornal da Globo se volta para alimentar a tropa, recorrendo a um grupo de “especialistas” cuja origem torna os comentários previsíveis.
– Mensagens políticas invadem os programas de entretenimento, como quando Alexandre Garcia foi para o sofá de Ana Maria Braga ou convidados aos quais a emissora paga favores acabam “entrevistados” no programa do Jô.
A diferença é que, graças a ex-profissionais da Globo como Rodrigo Vianna, Marco Aurélio Mello e outros, hoje milhares de telespectadores e internautas se tornaram fiscais dos métodos que Ali Kamel implantou no jornalismo da emissora. Ele acha que consegue enganar alguém ao distorcer, deturpar e omitir.
É mais do mesmo, com um gostinho de repeteco no ar. A história se repete, agora com gostinho de farsa.
Querem tirar a prova? Busquem no site do Jornal Nacional daquele período quantas capas da Veja ou da Época foram repercutidas no sábado. Copiem as capas das revistas que foram repercutidas. Confiram o conteúdo das capas e das denúncias. Depois, me digam o que vocês encontraram.
Fonte: http://www.viomundo.com.br/opiniao-do-blog/a-reprise-de-2006-agora-como-farsa.html
A reprise de 2006. Agora, como farsa
por Luiz Carlos Azenha
Em 2005 e 2006 eu era repórter especial da TV Globo. Tinha salário de executivo de multinacional. Trabalhei na cobertura da crise política envolvendo o governo Lula.
Fui a Goiânia, onde investiguei com uma equipe da emissora o caixa dois do PT no pleito local. Obtivemos as provas necessárias e as reportagens foram ao ar no Jornal Nacional. O assunto morreu mais tarde, quando atingiu o Congresso e descobriu-se que as mesmas fontes financiadoras do PT goiano também tinham irrigado os cofres de outros partidos. Ou seja, a “crise” tornou-se inconveniente.
Mais tarde, já em 2006, houve um pequena revolta de profissionais da Globo paulista contra a cobertura política que atacava o PT mas poupava o PSDB. Alguns dos colegas sairam da emissora, outros ficaram. Como resultado de um encontro interno ficou decidido que deixaríamos de fazer uma cobertura seletiva das capas das revistas semanais.
Funciona assim: a Globo escolhe algumas capas para repercutir, mas esconde outras. Curiosamente e coincidentemente, as capas repercutidas trazem ataques ao governo e ao PT. As capas “esquecidas” podem causar embaraço ao PSDB ou ao DEM. Aquela capa da Caros Amigos sobre o filho que Fernando Henrique Cardoso exilou na Europa, por exemplo, jamais atenderia aos critérios de Ali Kamel, que exerce sobre os profissionais da emissora a mesma vigilância que o cardeal Ratzinger dedicava aos “insubordinados”.
Aquela capa da Caros Amigos, como vimos estava factualmente correta. O filho de FHC só foi “assumido” quando ele estava longe do poder. Já a capa da Veja sobre os dólares de Fidel Castro para a campanha de Lula mereceu cobertura no Jornal Nacional de sábado, ainda que a denúncia nunca tenha sido comprovada.
Funciona assim: aos sábados, o Jornal Nacional repercute acriticamente as capas da Veja que trazem denúncias contra o governo Lula e aliados. É o que se chama no meio de “dar pernas” a um assunto, garantir que ele continue repercutindo nos dias seguintes.
Pois bem, no episódio que já narrei aqui no blog eu fui encarregado de fazer uma reportagem sobre as ambulâncias superfaturadas compradas pelo governo quando José Serra era ministro da Saúde no governo FHC. Havia, em todo o texto, um número embaraçoso para Serra, que concorria ao governo paulista: a maioria das ambulâncias superfaturadas foi comprada quando ele era ministro.
Ainda assim, os chefes da Globo paulista garantiram que a reportagem iria ao ar. Sábado, nada. Segunda, nada. Aparentemente, alguém no Rio decidiu engavetar o assunto. E é essa a base do que tenho denunciado continuamente neste blog: alguns escândalos valem mais que outros, algumas denúncias valem mais que outras, os recursos humanos e técnicos da emissora — vastos, aliás — acabam mobilizados em defesa de certos interesses e para atacar outros.
Nesta campanha eleitoral já tem sido assim: a seletividade nas capas repercutidas foi retomada recentemente, quando a revista Veja fez denúncias contra o tesoureiro do PT. Um colega, ex-Globo, me encontrou e disse: “A fórmula é a mesma. Parece reprise”.
Ou seja, podemos esperar mais do mesmo:
– Sob o argumento de que a emissora está concedendo “tempo igual aos candidatos”, se esconde uma armadilha, no conteúdo do que é dito ou no assunto que é escolhido. Frequentemente, em 2006, era assim: repercutindo um assunto determinado pela chefia, a Globo ouvia três candidatos atacando o governo (Geraldo Alckmin, Heloisa Helena e Cristovam Buarque) e Lula ou um assessor defendendo. Ou seja, era um minuto e meio de ataques e 50 segundos de contraditório.
– O Bom Dia Brasil é reservado a tentar definir a agenda do dia, com ampla liberdade aos comentaristas para trazer à tona assuntos que em tese favoreçam um candidato em detrimento de outro.
– O Jornal da Globo se volta para alimentar a tropa, recorrendo a um grupo de “especialistas” cuja origem torna os comentários previsíveis.
– Mensagens políticas invadem os programas de entretenimento, como quando Alexandre Garcia foi para o sofá de Ana Maria Braga ou convidados aos quais a emissora paga favores acabam “entrevistados” no programa do Jô.
A diferença é que, graças a ex-profissionais da Globo como Rodrigo Vianna, Marco Aurélio Mello e outros, hoje milhares de telespectadores e internautas se tornaram fiscais dos métodos que Ali Kamel implantou no jornalismo da emissora. Ele acha que consegue enganar alguém ao distorcer, deturpar e omitir.
É mais do mesmo, com um gostinho de repeteco no ar. A história se repete, agora com gostinho de farsa.
Querem tirar a prova? Busquem no site do Jornal Nacional daquele período quantas capas da Veja ou da Época foram repercutidas no sábado. Copiem as capas das revistas que foram repercutidas. Confiram o conteúdo das capas e das denúncias. Depois, me digam o que vocês encontraram.
Fonte: http://www.viomundo.com.br/opiniao-do-blog/a-reprise-de-2006-agora-como-farsa.html
segunda-feira, 5 de abril de 2010
Como democratizar a educação?
4 de abril de 2010 | 20h34
Ethevaldo Siqueira
Talvez seja pretensão, mas tenho a impressão de que este portal do Estadão está começando a mostrar o que será o jornalismo do século 21. Digo isso pensando também noutra instituição, a universidade, que ainda me parece conservadora e preconceituosa diante das grandes inovações e tendências mundiais. Uma dessas tendências é a do conteúdo aberto (open contents), segundo conclui o relatório Horizons, que sintetiza a opinião de 400 cientistas de todo o mundo.
Ao longo da história, não tem sido fácil abrir o conteúdo das ciências, da literatura e das artes em geral e torná-lo acessível a milhões de pessoas. Na Idade Média, o conhecimento mais avançado da humanidade permanecia trancafiado nos mosteiros. A primeira revolução veio com o livro, a partir da invenção da imprensa por Gutenberg, por volta de 1455.
Ao longo de mais de cinco séculos que nos separam da invenção da imprensa, a humanidade tem vivido outras revoluções tecnológicas como a da máquina a vapor, da eletricidade, do rádio, da TV e da internet. Todos esses avanços têm acelerado, de alguma forma o processo de difusão da informação. Mesmo assim, o acesso ao conhecimento continua a enfrentar barreiras inconcebíveis, em especial na universidade, uma instituição que nasceu no século 14, exatamente com a proposta central de universalizar a cultura.
Diversas instituições de renome, no entanto, começam a abrir seus conteúdos de informação e conhecimento, como é o caso, entre outras, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e da Universidade da Califórnia em Berkeley. Em minha visita a esta última, em janeiro, pude testemunhar a experiência mais ousada de abertura do conhecimento a toda a população: todas as aulas, seminários e debates de Berkeley podem ser livremente repetidos pela internet e pela TV por qualquer cidadão.
É claro que, em menor escala, essa abertura já existe em uma centena de universidades em todo o mundo. No Brasil, entretanto, as resistências ainda são muito grandes, ora por razões puramente formais ou burocráticas, ora por simples má vontade ou inércia. Assim, a universidade brasileira permanece segregada, fechada, em sua condição de redoma ou convento intelectual.
Para nossa alegria, entretanto, as novas tecnologias da comunicação e da informação já ultrapassam a fase do uso incipiente, que era o de apenas fazer mais rapidamente e com maior precisão as mesmas coisas que fazíamos no passado, e começam a abrir a possibilidade de realização de conquistas sociais impensáveis até há alguns anos. Com o notável progresso dessas tecnologias, dispomos de ferramentas mais eficientes para esse processo de democratização do conhecimento. Com esse arsenal de novos recursos, podemos ir muito além da simples e romântica visão de uma Universidade Aberta. A cada dia que passa, torna-se mais fácil, mais rápido e mais barato, organizar, processar, armazenar e transmitir milhões de terabytes de informação sistematizada.
Imagine a potencial dos grandes portais já disponíveis sobre saúde e medicina, com conteúdo fornecido pelas melhores universidades, para orientação de cada cidadão. Essa é, aliás, a filosofia do paciente informado que se expande pelo mundo. Vejam o exemplo seguinte: nos EUA, as Universidades de Harvard, MIT, Columbia, Illinois, Berkeley e Stanford se uniram para criar um portal-modelo de saúde destinado ao grande público (http://www.medpedia.com). Visite-o, caro leitor-internauta.
O que revoluciona a educação
Há cerca de um ano, revisitei a Finlândia, para me atualizar sobre esse país que, reconhecidamente, oferece à sua população o melhor padrão educacional do mundo. Esse nível de excelência alcança tanto a universidade, como o ensino nos níveis médio e primário. Tais resultados decorrem, acima de tudo, da qualidade de seus professores, das instalações de suas escolas, da adequação de seus currículos, do número de horas efetivas de aulas e da seriedade dos processos de avaliação da aprendizagem.
Ouvi de um professor de primeiro grau finlandês: “Como educador, sou bem remunerado, sinto-me integrante da classe média, tenho casa própria, automóvel, sei que terei uma aposentadoria decente e que meus filhos poderão estudar nas melhores escolas. Orgulho-me de minha profissão e de meu trabalho. A sociedade me respeita e reconhece o valor de minha contribuição para o futuro das crianças e jovens de meu país.”
Minha maior surpresa na Finlândia foi notar que, ali, as escolas de primeiro grau não revelam nenhuma paixão especial pelo computador ou pela banda larga. É claro que seus educadores consideram esses recursos tecnológicos importantes e mesmo estratégicos para o país como um todo, mas afirmam que eles devem ser utilizados na dose certa, no momento exato e de modo correto.
Um dos exemplos desse uso correto é o curso que a escola de nível médio ministra a garotos e adolescentes na Finlândia e em outros países da Europa, para prepará-los para o uso competente do computador e da internet, fornecendo-lhe, ao final, o certificado chamado computer driving license, por analogia com a carteira de habilitação de motorista. Seria muito bom que as crianças brasileiras dispusessem de cursos periódicos semelhantes.
É claro que muitos pais orientam seus filhos no uso de computadores em casa, mas cuidando para que eles não acessem sites de pornografia, pedofilia ou outros conteúdos inadequados. Essa vigilância é mais rigorosa para garotos entre 5 e 12 anos. Há, no entanto, uma minoria de pais que, como no resto do mundo, abandona totalmente seus filhos aos cuidados da internet, sem se preocupar com os riscos potenciais da rede.
Um laptop por aluno?
Não tenho dúvida de que a maioria das pessoas que defende o projeto de Um Laptop por Criança (OLPC, na sigla em inglês One Laptop Per Child) para o Brasil e outros países emergentes, são pessoas bem-intencionadas e idealistas. A experiência finlandesa mostra, no entanto, que o computador, quando usado rotineiramente em sala de aula, sem critério, não traz nenhum benefício para a aprendizagem. Pelo contrário, prejudica o aproveitamento escolar do aluno.
É claro que muitas escolas poderão oferecer a seus alunos acesso a terminais de computadores de uma rede local, com recursos audiovisuais e didáticos, para o ensino de geografia, história, matemática, física, química, biologia, literatura e outras matérias, a partir de projetos pedagógicos bem concebidos. Nesse sentido, seria útil e desejável que os garotos aprendessem a usar em casa alguns aplicativos para a aprendizagem de certas matérias. Conheço pais que usam o Google Earth para ensinar geografia a seus filhos. Ou para mostrar-lhes a beleza da astronomia com um programa tão atraente quanto o Starry Night (Noite Estrelada). Na escola, esses e muitos outros recursos de software poderiam ser adotados para ilustrar aulas, mas sempre sob estrita orientação do professor.
Esperar que a simples disponibilidade do computador e da internet de banda larga na escola deflagre uma revolução na qualidade do ensino é mais que ingenuidade. Nenhuma ferramenta ou tecnologia tem esse dom mágico. Na verdade, a grande revolução educacional que um país pode realizar é resultado da combinação de um conjunto de fatores tão conhecidos como:
a) investimentos públicos prioritários em educação;
b) melhor formação e atualização do professor;
c) remuneração condigna e a perspectiva de uma carreira atraente ao educador;
d) melhoria constante do ambiente escolar, dando-lhe mais segurança e funcionalidade;
e) especial atenção à saúde e à nutrição dos alunos;
f) atualização permanente dos currículos e do material didático;
g) envolvimento direto da família e da sociedade no problema da educação.
Esse último aspecto me preocupa de modo especial pois a maioria dos pais brasileiros não acompanha de perto a vida deseus filhos na escola, não conhece sequer seus professores, nem sabe o que suas crianças fazem na internet.
(Visite também o site www.telequest.com.br)
Fonte: Jornal Estado de São Paulo
Ethevaldo Siqueira
Talvez seja pretensão, mas tenho a impressão de que este portal do Estadão está começando a mostrar o que será o jornalismo do século 21. Digo isso pensando também noutra instituição, a universidade, que ainda me parece conservadora e preconceituosa diante das grandes inovações e tendências mundiais. Uma dessas tendências é a do conteúdo aberto (open contents), segundo conclui o relatório Horizons, que sintetiza a opinião de 400 cientistas de todo o mundo.
Ao longo da história, não tem sido fácil abrir o conteúdo das ciências, da literatura e das artes em geral e torná-lo acessível a milhões de pessoas. Na Idade Média, o conhecimento mais avançado da humanidade permanecia trancafiado nos mosteiros. A primeira revolução veio com o livro, a partir da invenção da imprensa por Gutenberg, por volta de 1455.
Ao longo de mais de cinco séculos que nos separam da invenção da imprensa, a humanidade tem vivido outras revoluções tecnológicas como a da máquina a vapor, da eletricidade, do rádio, da TV e da internet. Todos esses avanços têm acelerado, de alguma forma o processo de difusão da informação. Mesmo assim, o acesso ao conhecimento continua a enfrentar barreiras inconcebíveis, em especial na universidade, uma instituição que nasceu no século 14, exatamente com a proposta central de universalizar a cultura.
Diversas instituições de renome, no entanto, começam a abrir seus conteúdos de informação e conhecimento, como é o caso, entre outras, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e da Universidade da Califórnia em Berkeley. Em minha visita a esta última, em janeiro, pude testemunhar a experiência mais ousada de abertura do conhecimento a toda a população: todas as aulas, seminários e debates de Berkeley podem ser livremente repetidos pela internet e pela TV por qualquer cidadão.
É claro que, em menor escala, essa abertura já existe em uma centena de universidades em todo o mundo. No Brasil, entretanto, as resistências ainda são muito grandes, ora por razões puramente formais ou burocráticas, ora por simples má vontade ou inércia. Assim, a universidade brasileira permanece segregada, fechada, em sua condição de redoma ou convento intelectual.
Para nossa alegria, entretanto, as novas tecnologias da comunicação e da informação já ultrapassam a fase do uso incipiente, que era o de apenas fazer mais rapidamente e com maior precisão as mesmas coisas que fazíamos no passado, e começam a abrir a possibilidade de realização de conquistas sociais impensáveis até há alguns anos. Com o notável progresso dessas tecnologias, dispomos de ferramentas mais eficientes para esse processo de democratização do conhecimento. Com esse arsenal de novos recursos, podemos ir muito além da simples e romântica visão de uma Universidade Aberta. A cada dia que passa, torna-se mais fácil, mais rápido e mais barato, organizar, processar, armazenar e transmitir milhões de terabytes de informação sistematizada.
Imagine a potencial dos grandes portais já disponíveis sobre saúde e medicina, com conteúdo fornecido pelas melhores universidades, para orientação de cada cidadão. Essa é, aliás, a filosofia do paciente informado que se expande pelo mundo. Vejam o exemplo seguinte: nos EUA, as Universidades de Harvard, MIT, Columbia, Illinois, Berkeley e Stanford se uniram para criar um portal-modelo de saúde destinado ao grande público (http://www.medpedia.com). Visite-o, caro leitor-internauta.
O que revoluciona a educação
Há cerca de um ano, revisitei a Finlândia, para me atualizar sobre esse país que, reconhecidamente, oferece à sua população o melhor padrão educacional do mundo. Esse nível de excelência alcança tanto a universidade, como o ensino nos níveis médio e primário. Tais resultados decorrem, acima de tudo, da qualidade de seus professores, das instalações de suas escolas, da adequação de seus currículos, do número de horas efetivas de aulas e da seriedade dos processos de avaliação da aprendizagem.
Ouvi de um professor de primeiro grau finlandês: “Como educador, sou bem remunerado, sinto-me integrante da classe média, tenho casa própria, automóvel, sei que terei uma aposentadoria decente e que meus filhos poderão estudar nas melhores escolas. Orgulho-me de minha profissão e de meu trabalho. A sociedade me respeita e reconhece o valor de minha contribuição para o futuro das crianças e jovens de meu país.”
Minha maior surpresa na Finlândia foi notar que, ali, as escolas de primeiro grau não revelam nenhuma paixão especial pelo computador ou pela banda larga. É claro que seus educadores consideram esses recursos tecnológicos importantes e mesmo estratégicos para o país como um todo, mas afirmam que eles devem ser utilizados na dose certa, no momento exato e de modo correto.
Um dos exemplos desse uso correto é o curso que a escola de nível médio ministra a garotos e adolescentes na Finlândia e em outros países da Europa, para prepará-los para o uso competente do computador e da internet, fornecendo-lhe, ao final, o certificado chamado computer driving license, por analogia com a carteira de habilitação de motorista. Seria muito bom que as crianças brasileiras dispusessem de cursos periódicos semelhantes.
É claro que muitos pais orientam seus filhos no uso de computadores em casa, mas cuidando para que eles não acessem sites de pornografia, pedofilia ou outros conteúdos inadequados. Essa vigilância é mais rigorosa para garotos entre 5 e 12 anos. Há, no entanto, uma minoria de pais que, como no resto do mundo, abandona totalmente seus filhos aos cuidados da internet, sem se preocupar com os riscos potenciais da rede.
Um laptop por aluno?
Não tenho dúvida de que a maioria das pessoas que defende o projeto de Um Laptop por Criança (OLPC, na sigla em inglês One Laptop Per Child) para o Brasil e outros países emergentes, são pessoas bem-intencionadas e idealistas. A experiência finlandesa mostra, no entanto, que o computador, quando usado rotineiramente em sala de aula, sem critério, não traz nenhum benefício para a aprendizagem. Pelo contrário, prejudica o aproveitamento escolar do aluno.
É claro que muitas escolas poderão oferecer a seus alunos acesso a terminais de computadores de uma rede local, com recursos audiovisuais e didáticos, para o ensino de geografia, história, matemática, física, química, biologia, literatura e outras matérias, a partir de projetos pedagógicos bem concebidos. Nesse sentido, seria útil e desejável que os garotos aprendessem a usar em casa alguns aplicativos para a aprendizagem de certas matérias. Conheço pais que usam o Google Earth para ensinar geografia a seus filhos. Ou para mostrar-lhes a beleza da astronomia com um programa tão atraente quanto o Starry Night (Noite Estrelada). Na escola, esses e muitos outros recursos de software poderiam ser adotados para ilustrar aulas, mas sempre sob estrita orientação do professor.
Esperar que a simples disponibilidade do computador e da internet de banda larga na escola deflagre uma revolução na qualidade do ensino é mais que ingenuidade. Nenhuma ferramenta ou tecnologia tem esse dom mágico. Na verdade, a grande revolução educacional que um país pode realizar é resultado da combinação de um conjunto de fatores tão conhecidos como:
a) investimentos públicos prioritários em educação;
b) melhor formação e atualização do professor;
c) remuneração condigna e a perspectiva de uma carreira atraente ao educador;
d) melhoria constante do ambiente escolar, dando-lhe mais segurança e funcionalidade;
e) especial atenção à saúde e à nutrição dos alunos;
f) atualização permanente dos currículos e do material didático;
g) envolvimento direto da família e da sociedade no problema da educação.
Esse último aspecto me preocupa de modo especial pois a maioria dos pais brasileiros não acompanha de perto a vida deseus filhos na escola, não conhece sequer seus professores, nem sabe o que suas crianças fazem na internet.
(Visite também o site www.telequest.com.br)
Fonte: Jornal Estado de São Paulo
Mudanças rápidas em negócios
Com o fim da rede Monkey e a popularização dos PCs, começa uma nova fase para o acesso à internet fora de casa no Brasil
04 de abril de 2010
Um ciclo chegou ao fim na quinta-feira passada, quando as portas do estabelecimento localizado no número 1217 da Alameda Santos, em São Paulo, fecharam-se pela última vez. Naquele endereço funcionava a derradeira unidade da Monkey, rede que chegou a ter 63 lojas espalhadas pelo Brasil. O fim da Monkey é o melhor exemplo das transformações que vêm acontecendo na internet brasileira do ponto de vista do usuário e marca uma nova fase para uma instituição que já foi sinônimo de inclusão digital: a lan house.
Segundo o Ibope, houve uma queda no acesso à internet por lan houses ao mesmo tempo em que o número de brasileiros da faixa C e D que consegue comprar computadores e acessar a internet de suas casas aumenta a cada mês.
Por outro lado, cerca de 33 milhões de brasileiros ainda dependem delas para se conectar – 49% dos acessos à internet no Brasil ocorrem através de lan houses.
A decadência do modelo tradicional de lan houses é reflexo de uma mudança econômica no País somada a um barateamento e facilidade na compra de computadores – fatores que juntos estão mudando profundamente a forma do brasileiro se comportar online.
Formigueiro. Dois fatores foram determinantes para o fechamento da última Monkey - um que assola todas as lan houses e o outro uma peculiaridade da loja da Alameda Santos. O primeiro é a mudança de perfil do usuário: de garotos jogando Counter Strike para pessoas querendo usar Messenger e Orkut. "Aqui antes parecia um formigueiro, distribuíamos até senha. Mas agora a garotada joga em casa, só vão para a loja em campeonatos", explica Leandro Montoya, que foi gerente da Monkey de 2008 até o fechamento na semana passada.
Só que mesmo com essa perda de usuários que passaram a jogar em suas próprias casas, a Monkey seguia lucrativa, garante Montoya. Mas não como em tempos passados. "Como ela fica numa região nobre, muito valorizada, compensava mais vender ou alugar o prédio", explica.
Thiago Silva, dono da GigaByte, na Vila Borges, zona oeste de São Paulo, também sente na pele a mudança pela qual passa o negócio. Com a diferença de que sua loja fica em um bairro pobre de São Paulo, o que o impede de recorrer a transações imobiliárias. A saída foi criar uma nova fonte de renda: "Viver só de lan house não dá mais. Aqui eu conserto computadores, instalo programas. Tem que ter algo a mais", diz Thiago.
Exceção ao cenário que vem se apresentando é a GamenetX, em Moema, zona sul da cidade. A loja ainda se mantém como no início: oferecendo conexão veloz e computadores potentes, com foco em usuários de games. O dono da loja Alexandre Gasparini conta que enfrenta os mesmos problemas de outras casa, mas encontrou um nicho. "Os torneios profissionais de Counter Strike têm nos sustentado. Uma empresa pode alugar nosso espaço e organizar tudo. Eles pagam de três a quatro vezes a mais do que nós faturamos em um dia comum".
O fim de uma era. O modelo de negócios tradicional das lan houses acabou. Quem sentencia é Mario Brandão, presidente da Associação Brasileira de Centros de Inclusão Digital, que cita como motivo da decadência a extrema semelhança entre todas as lan houses: "É como uma praça de alimentação que todos os restaurantes servem o mesmo prato".
Mas ele acredita que as lan houses continuarão muito significativas na vida digital brasileira. Para demonstrar como elas podem coexistir, oferecendo um atrativo, ele nos convida a fazer um passeio: "Na minha lan house (no bairro da Abolição, no Rio de Janeiro), tenho acordo com instituições de ensino a distância, dou curso e tenho parceria com escolas. A 100 metros, tem uma lan house toda escura, um ambiente completo de imersão, que é para o pessoal jogar. Mais 50 metros, você encontra uma só com xerox, troca de cartucho, impressão. Anda um quilômetro para outro lado, tem outra que se especializou em VoIP. Quatro, uma perto da outra, não competem entre si e oferecem algo a mais".
Com o acesso à internet no Brasil ficando cada vez mais caseiro, Messenger, Orkut, Facebook e Twitter – além dos games – tornam-se serviços completamente integrados ao dia-dia das pessoas, como o celular. Resta às lan houses convencerem o público que podem oferecer algo que as pessoas não encontram no conforto da conexão de suas casas. Bem-vindos à fase dois – será que é a última?
Fonte: Jornal Estado de São Paulo
http://www.estadao.com.br/noticias/tecnologia+link,e-agora--lan-house,3507,0.shtm
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