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quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Assange: A manipulação de informações pela mídia é mais perigosa à democracia do que a de governos

"Não somos uma organização exclusivamente da esquerda. Somos uma
organização exclusivamente pela verdade e pela justiça".

Essa é apenas uma das muitas afirmações feitas pelo fundador e
publisher do WikILeaks, Julian Assange, em entrevista exclusiva a
internautas brasileiros. Essa iniciativa só foi possível graças à ação
articulada da blogosfera e, claro, aos internautas que enviaram
questões.

No total foram cerca de 350 perguntas, das quais doze foram
escolhidas. Na entrevista, Assange explica por que trabalha em
parceria com a grande mídia e debate a manipulação de informação e
como o vazamento de dados pode alterar a atuação dos governos.

Vários internautas - O WikiLeaks tem trabalhado com veículos da grande
mídia – aqui no Brasil, Folha e Globo, vistos por muita gente como
tendo uma linha política de direita. Mas além da concentração da
comunicação, muitas vezes a grande mídia tem interesses próprios. Não
é um contra-senso trabalhar com eles se o objetivo é democratizar a
informação? Por que não trabalhar com blogs e mídias alternativas?

Por conta de restrições de recursos ainda não temos condições de
avaliar o trabalho de milhares de indivíduos de uma vez. Em vez disso,
trabalhamos com grupos de jornalistas ou de pesquisadores de direitos
humanos que têm uma audiência significativa. Muitas vezes isso inclui
veículos de mídia estabelecidos; mas também trabalhamos com alguns
jornalistas individuais, veículos alternativos e organizações de
ativistas, conforme a situação demanda e os recursos permitem.

Uma das funções primordiais da imprensa é obrigar os governos a
prestar contas sobre o que fazem. No caso do Brasil, que tem um
governo de esquerda, nós sentimos que era preciso um jornal de
centro-direita para um melhor escrutínio dos governantes. Em outros
países, usamos a equação inversa. O ideal seria podermos trabalhar com
um veículo governista e um de oposição.

Marcelo Salles – Na sua opinião, o que é mais perigoso para a
democracia: a manipulação de informações por governos ou a manipulação
de informações por oligopólios de mídia?

A manipulação das informações pela mídia é mais perigosa, porque
quando um governo as manipula em detrimento do público e a mídia é
forte, essa manipulação não se segura por muito tempo. Quando a
própria mídia se afasta do seu papel crítico, não somente os governos
deixam de prestar contas como os interesses ou afiliações perniciosas
da mídia e de seus donos permitem abusos por parte dos governos. O
exemplo mais claro disso foi a Guerra do Iraque em 2003, alavancada
ela grande mídia dos Estados Unidos.

Eduardo dos Anjos – Tenho acompanhado os vazamentos publicados pela
sua ONG e até agora não encontrei nada que fosse relevante, me parece
que é muito barulho por nada. Por que tanta gente ao mesmo tempo
resolveu confiar em você? E por que devemos confiar em você?

O WikiLeaks tem uma história de quatro anos publicando documentos.
Nesse período, até onde sabemos, nunca atestamos ser verdadeiro um
documento falso. Além disso, nenhuma organização jamais nos acusou
disso. Temos um histórico ilibado na distinção entre documentos
verdadeiros e falsos, mas nós somos, é claro, apenas humanos e podemos
um dia cometer um erro. No entanto até o momento temos o melhor
histórico do mercado e queremos trabalhar duro para manter essa boa
reputação.

Diferente de outras organizações de mídia que não têm padrões claros
sobre o que vão aceitar e o que vão rejeitar, o WikiLeaks tem uma
definição clara que permite às nossas fontes saber com segurança se
vamos ou não publicar o seu material.

Aceitamos vazamentos de relevância diplomática, ética ou histórica,
que sejam documentos oficiais classificados ou documentos suprimidos
por alguma ordem judicial.

Vários internautas – Que tipo de mudança concreta pode acontecer como
consequência do fenômeno Wikileaks nas práticas governamentais e
empresariais? Pode haver uma mudança na relação de poder entre essas
esferas e o público?

James Madison, que elaborou a Constituição americana, dizia que o
conhecimento sempre irá governar sobre a ignorância. Então as pessoas
que pretendem ser mestras de si mesmas têm de ter o poder que o
conhecimento traz. Essa filosofia de Madison, que combina a esfera do
conhecimento com a esfera da distribuição do poder, mostra as mudanças
que acontecem quando o conhecimento é democratizado.

Os Estados e as megacorporações mantêm seu poder sobre o pensamento
individual ao negar informação aos indivíduos. É esse vácuo de
conhecimento que delineia quem são os mais poderosos dentro de um
governo e quem são os mais poderosos dentro de uma corporação.

Assim, o livre fluxo de conhecimento de grupos poderosos para grupos
ou indivíduos menos poderosos é também um fluxo de poder, e portanto
uma força equalizadora e democratizante na sociedade.

Marcelo Träsel - Após o Cablegate, o Wikileaks ganhou muito poder.
Declarações suas sobre futuros vazamentos já influenciaram a bolsa de
valores e provavelmente influenciam a política dos países citados
nesses alertas. Ao se tornar ele mesmo um poder, o Wikileaks não
deveria criar mecanismos de auto-vigilância e auto-responsabilização
frente à opinião pública mundial?

O WikiLeaks é uma das organizações globais mais responsáveis que existem.

Prestamos muito mais contas ao público do que governos nacionais,
porque todo fruto do nosso trabalho é público. Somos uma organização
essencialmente pública; não fazemos nada que não contribua para levar
informação às pessoas.

O WikiLeaks é financiado pelo público, semana a semana, e assim eles
"votam" com as suas carteiras.

Além disso, as fontes entregam documentos porque acreditam que nós
vamos protegê-las e também vamos conseguir o maior impacto possível.
Se em algum momento acharem que isso não é verdade, ou que estamos
agindo de maneira antiética, as colaborações vão cessar.
O WikiLeaks é apoiado e defendido por milhares de pessoas generosas
que oferecem voluntariamente o seu tempo, suas habilidades e seus
recursos em nossa defesa. Dessa maneira elas também "votam" por nós
todos os dias.

Daniel Ikenaga – Como você define o que deve ser um dado sigiloso?

Nós sempre ouvimos essa pergunta. Mas é melhor reformular da seguinte
maneira: "quem deve ser obrigado por um Estado a esconder certo tipo
de informação do resto da população?"

A resposta é clara: nem todo mundo no mundo e nem todas as pessoas em
uma determinada posição. Assim, o seu médico deve ser responsável por
manter a confidencialidade sobre seus dados na maioria das
circunstâncias – mas não em todas.

Vários internautas – Em declarações ao Estado de São Paulo, você disse
que pretendia usar o Brasil como uma das bases de atuação do
WikiLeaks. Quais os planos futuros? Se o governo brasileiro te
oferecesse asilo político, você aceitaria?

Eu ficaria, é claro, lisonjeado se o Brasil oferecesse ao meu pessoal
e a mim asilo político. Nós temos grande apoio do público brasileiro.
Com base nisso e na característica independente do Brasil em relação a
outros países, decidimos expandir nossa presença no país. Infelizmente
eu, no momento, estou sob prisão domiciliar no inverno frio de
Norfolk, na Inglaterra, e não posso me mudar para o belo e quente
Brasil.

Vários internautas – Você teme pela sua vida? Há algum mecanismo de
proteção especial para você? Caso venha a ser assassinado, o que vai
acontecer com o WikiLeaks?

Nós estamos determinados a continuar a despeito das muitas ameaças que
sofremos. Acreditamos profundamente na nossa missão e não nos
intimidamos nem vamos nos intimidar pelas forças que estão contra nós.

Minha maior proteção é a ineficácia das ações contra mim. Por exemplo,
quando eu estava recentemente na prisão por cerca de dez dias, as
publicações de documentos continuaram.

Além disso, nós também distribuímos cópias do material que ainda não
foi publicado por todo o mundo, então não é possível impedir as
futuras publicações do WikiLeaks atacando o nosso pessoal.

Helena Vieira - Na sua opinião, qual a principal revelação do
Cablegate? A sua visão de mundo, suas opiniões sobre nossa atual
realidade mudou com as informações a que você teve acesso?

O Cablegate cobre quase todos os maiores acontecimentos, públicos e
privados, de todos os países do mundo – então há muitas revelações
importantíssimas, dependendo de onde você vive. A maioria dessas
revelações ainda está por vir.

Mas, se eu tiver que escolher um só telegrama, entre os poucos que eu
li até agora – tendo em mente que são 250 mil – seria aquele que pede
aos diplomatas americanos obter senhas, DNAs, números de cartões de
crédito e números dos vôos de funcionários de diversas organizações –
entre elas a ONU.

Esse telegrama mostra uma ordem da CIA e da Agência de Segurança
Nacional aos diplomatas americanos, revelando uma zona sombria no
vasto aparato secreto de obtenção de inteligência pelos EUA.

Tarcísio Mender e Maiko Rafael Spiess - Apesar de o WikiLeaks ter
abalado as relações internacionais, o que acha da Time ter eleito Mark
Zuckerberg o homem do ano? Não seria um paradoxo, você ser o
"criminoso do ano", enquanto Mark Zuckerberg é aplaudido e laureado?

A revista Time pode, claro, dar esse título a quem ela quiser. Mas
para mim foi mais importante o fato de que o público votou em mim numa
proporção vinte vezes maior do que no candidato escolhido pelo editor
da Time. Eu ganhei o voto das pessoas, e não o voto das empresas de
mídia multinacionais. Isso me parece correto.

Também gostei do que disse (o programa humorístico da TV americana)
Saturday Night Live sobre a situação: "Eu te dou informações privadas
sobre corporações de graça e sou um vilão. Mark Zuckerberg dá as suas
informações privadas para corporações por dinheiro – e ele é o 'Homem
do Ano'."

Nos bastidores, claro, as coisas foram mais interessantes, com a
facção pró-Assange dentro da revista Time sendo apaziguada por uma
capa bastante impressionante na edição de 13 de dezembro, o que abriu
o caminho para a escolha conservadora de Zuckerberg algumas semanas
depois.

Vinícius Juberte – Você se considera um homem de esquerda?

Eu vejo que há pessoas boas nos dois lados da política e
definitivamente há pessoas más nos dois lados. Eu costumo procurar as
pessoas boas e trabalhar por uma causa comum.

Agora, independente da tendência política, vejo que os políticos que
deveriam controlar as agências de segurança e serviços secretos
acabam, depois de eleitos, sendo gradualmente capturados e se tornando
obedientes a eles.

Enquanto houver desequilíbrio de poder entre as pessoas e os
governantes, nós estaremos do lado das pessoas.

Isso é geralmente associado com a retórica da esquerda, o que dá
margem à visão de que somos uma organização exclusivamente de
esquerda. Não é correto. Somos uma organização exclusivamente pela
verdade e justiça – e isso se encontra em muitos lugares e tendências.

Ariely Barata – Hollywood divulgou que fará um filme sobre sua
trajetória. Qual sua opinião sobre isso?

Hollywood pode produzir muitos filmes sobre o WikiLeaks, já que quase
uma dúzia de livros está para ser publicada. Eu não estou envolvido em
nenhuma produção de filme no momento.

Mas se nós vendermos os direitos de produção, eu vou exigir que meu
papel seja feito pelo Will Smith. O nosso porta-voz, Kristinn
Hrafnsson, seria interpretado por Samuel L Jackson, e a minha bela
assistente por Halle Berry. E o filme poderia se chamar "WikiLeaks
Filme Noire".

Fonte: http://www.viomundo.com.br/entrevistas/julian-assange-a-manipulacao-de-informacoes-pela-midia-e-mais-perigosa-a-democracia-do-que-a-feita-por-governos.html

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Nostalgia do trabalho

Thomaz Wood Jr.

23 de janeiro de 2011 às 10:58h

Ao longo dos séculos, o trabalho passou por várias mutações. A Grécia Antiga não o tinha em alta conta: seus luminares o consideravam um inimigo da virtude, a brutalizar a mente dos homens e inutilizá-los para as atividades mais nobres: a política e a filosofia. O Renascimento recuperou o valor do trabalho e elegeu seu herói: o mestre artesão, capaz de dele extrair sustento e arte.

No entanto, foi com a Revolução Industrial que o trabalho atingiu o seu apogeu, sendo celebrado como motor da modernização e da transformação do mundo. Hoje, a nossa sociedade tem outros deuses: cultua mais o consumo do que a produção, valoriza mais a imagem do que o fato, celebra mais o cargo do que o batente.
Significativamente, surgem aqui e acolá nostálgicos da velha ordem. Notem, por exemplo, a proliferação de profissionais bem-sucedidos com “hobbies sérios” ou “atividades paralelas”. Parece estar crescendo o número de médicos pintores, financistas carpinteiros e engenheiros moveleiros. Como se não bastassem as longas e estressantes jornadas de trabalho, muitos profissionais mostram-se ávidos em localizar espaço na agenda para desenvolver e exercitar suas competências manuais. Sintomático!
O norte-americano Matthew B. Crawford seguiu os passos do sucesso ditados pela nova sociedade da informação: obteve um Ph.D. na Universidade de Chicago e conseguiu emprego em um think tank em Washington, D.C. Entretanto, não demorou para se desiludir com a manipulação de ideias e se frustrar com o restrito uso de seu intelecto. Então, retornou algumas décadas na tecnologia e dois séculos na organização do trabalho: foi montar uma oficina de reparos de motocicletas antigas. No livro Shop Class as Soulcraft An Inquiry Into the Value of Work (The Penguin Press, 2009), Crawford narra sua saga e defende seus argumentos.

O autor parte da constatação de que uma mudança substantiva está em curso: o que antes fazíamos, agora compramos pronto; o que antes consertávamos, agora substituímos. Estamos, com isso, perdendo nossas habilidades manuais e nos tornando mais passivos e dependentes. Pior: estamos também perdendo alguns fatores intrínsecos de satisfação do trabalho.

Para Crawford, o retorno ao artesanato, como mecânico de motocicletas, devolveu-lhe o verdadeiro sentido do trabalho. Primeiro, porque o resultado é claramente visível e reconhecido pelo cliente. Segundo, porque o trabalho envolve operações cognitivas complexas que dependem de conhecimento prático e experiência acumulada. Terceiro, porque sua posição lhe confere um lugar na comunidade.

O autor argumenta que quem trabalha mais próximo dos fenômenos naturais consegue estabelecer correlações e princípios mais coerentes, enquanto quem lida permanentemente com abstrações e ignora a matéria-prima da realidade tende a gerar dogmas com base em poucas observações. Para o autor, o conserto de motocicletas envolve raciocínio mais amplo e complexo do que o trabalho no think tank, o contrário do que apontaria o senso comum.
Mas qual a raiz da desvalorização do trabalho artesanal? Segundo os manuais de gestão, o ponto de inflexão deu-se pela consolidação da linha de produção fordista e pela disseminação dos princípios de administração científica, que ocorreram no início do século XX. Esses fenômenos gêmeos aumentaram significativamente a produtividade, reduziram custos de manufatura e criaram as bases para a sociedade de produção e consumo em massa. Como efeito colateral, eles marginalizaram o trabalho artesanal. A separação entre o planejamento do trabalho (realizado por especialistas e gerentes) e a execução do trabalho (realizado mecanicamente por operários) destruiu algumas características que proviam satisfação intrínseca ao trabalho.

Esse movimento, que começou na indústria, avança agora firme no setor de serviços. Os bancos, as seguradoras e os hospitais têm processos que estão sendo cientificamente racionalizados, como se fossem linhas de produção. A separação que ocorreu com o trabalho industrial está agora ocorrendo com o trabalho no setor de serviços: enquanto os gestores se atolam em reuniões, PowerPoints e ­e-mails, o trabalho nos porões das centrais de atendimento e nos centros de serviços sofre forte padronização e rotinização.

Crawford é claro em sua valorização dos laços morais que ligam os trabalhadores ao seu trabalho e os empreendedores aos seus consumidores, laços que não deveriam ser tão prontamente sacrificados no altar da eficiência e do crescimento. O esfacelamento desses laços desencoraja a prudência e pode provocar efeitos nefastos. Não faltam recalls de produtos ou crises financeiras para ilustrar o argumento.

fonte: http://www.cartacapital.com.br/economia/nostalgia-do-trabalho

Conversando com os computadores : Steve Wozniak, cofundador da Apple, acredita que o computador se tornará o melhor amigo das pessoas

'Conversaremos com os computadores como se fossem pessoas'


23 de janeiro de 2011 | 23h 00

Alexandre Matias, de O Estado de S. Paulo

SÃO PAULO - Ele hipnotizou centenas de participantes da Campus Party ao contar sua trajetória no sábado, numa palestra que teve mais olhares atentos que a do ex-vice-presidente americano Al Gore, na terça-feira. Não era para menos: não bastasse ser um dos maiores nomes da história da computação, a história de Steve Wozniak, cofundador da Apple, é muito parecida com a da maioria dos participantes do evento que terminou ontem. Um nerd por excelência, o ex-parceiro de Steve Jobs falou ao público sobre a importância do bom humor e da paixão quando se quer escolher qualquer tipo de carreira enquanto contava a todos como inventou o computador como o conhecemos hoje. Antes da apresentação, Wozniak falou ao Estado sobre outro assunto: o futuro da computação pessoal.

Em 2010, assistimos à entrada de dois novos aparelhos no mercado que causaram impacto na história da computação: o iPad, da Apple, e o Kinect, da Microsoft. Ambos são computadores pessoais, mas não são como o computador pessoal que o sr. Concebeu.


g>ClarClaro, apesar de que as maiores mudanças nos computadores normalmente acontecem em novas formas de interação entre o ser humano e eles. É a forma como nós usamos nossos corpos, nossa visão... E essas formas de interação estão ficando cada vez mais humanas do que eram anteriormente. Acho que essa tendência vai continuar para sempre. Os computadores do futuro vão permitir diálogos como se eles fossem pessoas de verdade. Eu não acho que o reconhecimento de voz já está nesse ponto, mas tenho tantos aplicativos nos meus telefones que funcionam tão bem só com a voz que eu não quero voltar a seguir determinados procedimentos ou digitar comandos...

...Nem sequer usar o mouse.

Eu não quero usar o mouse, não quero usar o teclado, eu não quero ter de dizer para o computador que ele deve rodar um determinado programa. Eu só quero dizer: "Faça uma reserva para seis pessoas hoje à noite numa determinada churrascaria nesta cidade aqui". E quando você faz as coisas de forma humana, você não faz a mesma coisa sempre do mesmo jeito, você não diz a mesma frase exatamente do mesmo jeito todas as vezes que fala. Por isso, o reconhecimento de voz deve entender que você fala a mesma coisa de várias formas diferentes. E você não precisa mais se preocupar com erros de digitação se os comandos são pela voz. Então é realmente maravilhoso poder dizer... "Bom Deus" (suspira, como se estivesse aliviado). As partes complicadas dos computadores vão ficar para trás, até chegarmos a um ponto em que ele poderá olhar no meu rosto e dizer se estou cansado.

Então o sr. acha que tanto iPad e Kinect quanto os celulares atuais são estágios intermediários rumo a um outro tipo de computador ainda melhor?

Sim, são ótimos estágios, como o próprio computador pessoal também foi. O PC só foi possível porque um certo tipo de tecnologia tornou-se disponível a um certo preço. E o mesmo aconteceu com outros tipos de tecnologia para que o iPad se tornasse viável: a tecnologia flash NAND para armazenamento de dados, fazendo com que não fossem necessárias peças enormes que consumiriam muita energia; a tecnologia de telas sensíveis ao toque, telas de alta resolução, baterias leves... Muitas dessas tecnologias vêm ao mesmo tempo, a um preço acessível, e permitem que determinados produtos façam sentido.

Há uma frase que diz que a tecnologia funciona de verdade quando as pessoas nem sequer percebem que a estão utilizando. O sr. acha que chegaremos a um ponto em que a tecnologia não será nem vista pelas pessoas?

É difícil negar isso, mas também é difícil pensar em exemplos para hoje em dia. Será que eu vou ter pequenos implantes nos meus olhos que farão que eu veja o mundo da forma como determinada tecnologia quer que eu veja? Se for assim, quem está no controle? Estamos ficando cada vez mais dependentes da nossa tecnologia de forma que nem podemos desligá-la. Se nós pudermos desligá-la, estamos no controle; mas não podemos mais. E se tivermos carros que dirigem sozinhos? Uau, cara... Nós temos de ir, temos de confiar nisso, mas podemos chegar ao ponto em que a tecnologia talvez não precise mais da gente.

E aí, como vimos em filmes de ficção científica, pode ser que a tecnologia queira descartar o fator humano, pois atrapalha...

É o que eu estou sugerindo - e isso já está acontecendo, mais do que podemos admitir. Quando as coisas acontecem devagar, você não as percebe acontecendo, mas quando estamos numa curva exponencial, as coisas podem mudar de uma vez só. Você consegue desligar seu computador? Consegue se desconectar da internet, desligar seu celular? Por quanto tempo? Por um ano? E se conseguir, que tipo de vida terá? E se todos resolverem fazer isso? Seria uma vida bem diferente da que levamos agora.

Mas até chegarmos a esse estágio, a tecnologia terá de evoluir bastante. Que estágios deveremos percorrer nos próximos dez anos?

Num futuro próximo, não muito próximo, mas também não muito distante, se tornará bem difícil saber se você está lidando com um computador ou com uma pessoa de verdade. E será tão bom: falar, entender, combinar palavras e deixar que o computador faça o reconhecimento das palavras e até crie um tipo de relacionamento com as pessoas...

Mas o sr. acha que no futuro teremos amigos digitais?

A ficção científica quase sempre fala em guerra entre homens e máquinas, quem será o vencedor, mas eu acho que criamos a tecnologia para melhorar nossas vidas. Estamos lidando com ela gradualmente, não há nenhuma batalha. Criamos a coisa mais próxima do cérebro humano que é a internet. Antes, perguntávamos para uma pessoa sábia quando precisávamos saber de alguma coisa, agora temos a busca do Google. Isso significa que parte de nosso cérebro já está fora de nossas cabeças, porque a internet cresceu tanto e nós não a criamos para ser um cérebro. Criamos a internet para colocar as pessoas em contato individualmente - e quando havia bilhões de pessoas em contato entre si, de repente, ela criou essa capacidade de funcionar como um cérebro.

E isso não assusta?

Não, porque você não se assusta com isso. Não passamos por uma fase de medo. Nós simplesmente aceitamos que o Google seja mais inteligente do que qualquer pessoa que conheçamos. Todos nós aceitamos.

Não é assustador pensar em um futuro em que as pessoas terão apenas amigos digitais?

Quando cresci eu era muito tímido, era um outsider. Eu ficava de fora de conversas normais, dos ritos sociais. E não tinha com quem falar. Tinha receio. Em todo lugar que eu ia, tentava ser o mais discreto, falar o mínimo possível, fazer o meu trabalho e cair fora. Agora esse mesmo tipo de pessoa passa o dia inteiro em seu quarto com um computador, com as portas fechadas, e tem relações sociais com pessoas de qualquer lugar do mundo, mesmo que sejam com pessoas tão restritas socialmente quanto ele.

Mas não existem pessoas digitais hoje em dia.

Imagine você se apaixonar por alguém que você não sabe se é uma pessoa ou um robô. Oh, cara (ri)... Mas eu não acho que isso vai acontecer. Mas há quem se apaixone por seus computadores, então tudo bem.

E como será o computador do futuro?

A questão é em quanto tempo no futuro... Eu acho que teremos um tipo de computador que, quando um aluno for para a escola, ele quer ficar com aquele computador como se fosse seu melhor amigo, que sabe tudo sobre ele, seus sentimentos, crenças e filosofias, mais do que um professor humano. Não consigo chutar em quantos anos isso acontecerá... Dez, vinte, trinta... Mas eu não estou falando em cem anos...

O que o sr. achou da Campus Party?

Eu fui a algumas outras Campus Party e percebi que esse tipo de evento seria onde eu estaria se eu estivesse crescendo hoje. Sendo eu o tipo de pessoa que sou, que acredita no que eu acredito, nos meus computadores, na interação com outras pessoas parecidas. Eu estaria aqui, eu seria um campuseiro. Eis a grande atração: jovens cheios de ideias que querem explorar o que eles querem estar fazendo neste mundo dos computadores, o que isso vai significar para eles, o quanto isso é importante para eles, que mudanças e diferenças eles podem fazer...

As pessoas aqui falam em "orgulho nerd".

Fico tão feliz em ouvir isso! Foi a melhor coisa que eu ouvi durante todo o dia de hoje! Há um tipo de evento que acontece tanto nos EUA quanto em alguns outros países chamado First Robotics. São times de segundo grau que constroem robôs, que são meio caros, do tamanho de pessoas, e eu vou julgar esses concursos sempre que posso. É um dia em que eles são tão importantes quanto os astros do cinema, os jogadores de futebol ou qualquer tipo de celebridade. É quando os geeks têm seu dia!

Ponto de mutação


Um político estadunidense (Jack Edwards, interpretado por Sam Waterston) vai à França visitar um velho amigo poeta (Thomas Harriman, interpretado por John Heard). Lá, conhecem uma cientista (Sonia Hoffman, interpretada por Liv Ullman) e, juntos, tecem uma profunda discussão sobre questões existenciais. Filme baseado na obra "The Turning Point" (O ponto de Mutação), de Fritjof Capra.

domingo, 23 de janeiro de 2011

Ilha da Gigoia - Barra da Tijuca (adiada para semana que vem)

Estaremos transmitindo em tempo real imagens da Ilha da Gigoia..acompanhe por aqui

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011